Esse mês começam as primeiras adaptações no cardápio – produtos industrializados e calóricos começam a dar lugar a alimentos mais saudáveis

Almoço na escola da aldeia Piaçaguera (Foto: Carlos Penteado)

Após 12 anos de reivindicações, os índios de Piaçaguera, no litoral sul de São Paulo, conseguiram compromisso da Prefeitura de Peruíbe para melhora da alimentação oferecida nas suas escolas com a adoção de um cardápio mais adequado aos seus hábitos e cultura alimentar. As mudanças serão implementadas a partir deste mês de maio, segundo informou a Prefeitura de Peruíbe à Comissão Pró-Índio. “Estamos lutando por mudanças na merenda tem 12 anos e só depois que fizemos documento com a Comissão Pró-Índio, agora eles estão mudando algumas coisas, já montamos um cardápio com os alimentos que queremos e entregamos para a empresa [responsável pela entrega dos alimentos nas escolas]”, conta Lilian Gomes Fernandes Securella, professora na TI Piaçaguera.

Catarina Delfina dos Santos, liderança da aldeia de Piaçaguera, também tem críticas ao cardápio atual “a comida tradicional é mais saudável, antigamente os índios eram mais fortes por comer alimento natural. Eu sinto falta de ter uma alimentação assim. Quem conviveu na época antiga sente falta e quem não viveu fala que gostaria de comer tradicional”. E pondera que o cardápio da merenda escolar poderia ter ao menos três dias de comida tradicional.

Otávio Penteado, assessor de programas da Comissão Pró-Índio, explica que as demandas dos índios de Piaçaguera estão contempladas nas diretrizes do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação, órgão ligado ao Ministério da Educação “eles têm o direito a uma alimentação escolar saudável que respeite e valorize a sua cultura alimentar”. A Comissão Pró-Índio tem apoiado os índios para que esse direito seja respeitado “divulgamos as suas reivindicações junto aos diversos órgãos responsáveis e pedimos o apoio para reverter a situação atual”, conta Otávio

O Cardápio começa a mudar
A Prefeitura de Peruíbe informou à Comissão Pró-Índio que o cardápio das aldeias segue um padrão mas que não há oposição a mudanças. “A prefeitura se disponibiliza a ouvir e conversar a respeito de qualquer solicitação feita pelas aldeias. O que for possível adequar dentro da cultura indígena local será atendido pela alimentação escolar” afirmou a assessoria de imprensa da prefeitura.<

Até agora, o cardápio das escolas continha muitos alimentos industrializados e calóricos (como almondega, linguiça, nugget de frango, achocolatado) que começam a dar lugar a produtos mais saudáveis.

Os índios solicitaram a inclusão de frutas, mandioca, batata doce, milho e peixe na alimentação oferecida pela escola que começou a mudar no início de maio.  “Foi a primeira vez que conseguimos alguma mudança, já é um passo. Esta semana já vimos uma diferença, com inclusão de batata doce. Mas ainda não é exatamente o que queremos”, explica a professora Lilian.

Ainda que o novo cardápio não contemple todas as alterações solicitadas pelos índios – continuam muito presentes bolachas e doces – a CPI-SP considera que houve um avanço importante. Finalmente abriu-se um espaço de diálogo e os índios puderam apresentar suas demandas. Dada a situação de insegurança alimentar vivida nas aldeias do Estado de São Paulo, assegurar uma alimentação de qualidade aos alunos torna-se ainda mais relevante”, atenta Otávio.

Cristiano Hutther, coordenador da Regional Litoral Sudeste da Funai, lembra de outro caso em que se conseguiu avanços “Temos um bom exemplo de produtores indígenas das aldeias do centro-oeste paulista, no município de Avaí, que fornecem mandioca in natura a quatro escolas indígenas”. Segundo Cristiano isso foi possibilitado por meio de uma parceria entre a Funai, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) do governo de São Paulo e o departamento de agricultura do município. Mas o coordenador da Funai lamenta que isso não aconteça em todas as aldeias do estado.

Entrevistas e texto: Bianca Pyl
Edição: Lúcia Andrade