Três casos de COVID-19 foram confirmados na Terra Indígena localizada em Peruíbe, litoral sul de São Paulo, onde vivem 344 pessoas. Os índios se organizam para impedir a entrada de pessoas de fora e suspendem as reuniões nas aldeias.

Terra Indígena Piaçaguera é cercada por centros urbanos. Foto: Carlos Penteado.

O alerta chegou à Comissão Pró-Índio de São Paulo pelas lideranças da Terra Indígena Piaçaguera na semana passada. A pandemia vai se agravando no litoral do estado, onde está situada a área indígena. O Município de Peruíbe já registrou 71 casos confirmados e 08 mortes, segundo boletim divulgado no dia 21 de maio pela Prefeitura.

Os resultados positivos geraram grande preocupação entre os 344 moradores das 11 aldeias da Terra Indígena. Os dois primeiros casos confirmados são de moradores da aldeia Piaçaguera, a maior entre elas, com 85 habitantes. O terceiro caso é um idoso da aldeia Awa Porungawa Dju. As três pessoas apresentam sintomas leves e encontram-se em suas residências.

“Agora essa doença está do nosso lado mesmo, literalmente do nosso lado, todo cuidado é pouco.  Quando eu soube do primeiro caso eu chorei, já está aqui com a gente, não é a mesma aldeia, mas é a mesma terra, é a gente. Já somos tão poucos, se a gente se contamina, como vai ser?”, se preocupa Lenira Dkatsy, diretora da Escola Estadual Indígena Aldeia Nhamandu Mirim. 

A Vigilância Sanitária de Peruíbe testou os moradores das duas aldeias que tiveram contato com os doentes  e todos deram negativo.

Ação de prevenção intensificada

Localizada na divisa dos municípios de Peruíbe e Itanhaém, a TI Piaçaguera está cercada por centros urbanos e é cortada pela Rodovia Padre Manoel da Nóbrega. Essa situação deixa os índios Tupi-Guarani especialmente vulneráveis à propagação da doença. Há cerca de dois meses, os índios mantêm o isolamento colocando porteiras nas entradas das aldeias, restringindo o acesso de não indígenas e monitorado a circulação de seus moradores.

Diante dos resultados positivos, o controle e os cuidados foram intensificados: os doentes foram isolados em suas casas, as lideranças orientaram que as pessoas não circulem entre as aldeias e que as saídas sejam restritas à compra de remédios, alimentos ou para o pagamento de contas. Dessa forma, as lideranças acreditam que podem conter a propagação do vírus: “A gente conversa só por celular para um proteger o outro. Não tem mais reunião, tudo por celular. Isolamento é o mais importante que tem, a gente está se protegendo por todos”, afirma Arildo dos Santos Eugênio “Awaruitxa Gwyra”, cacique da aldeia Awa Porungawa Dju.

Dentro da aldeia, manter o isolamento é um grande desafio, pois a vida comunitária se baseia no compartilhamento de espaços e objetos. A maior parte das casas abriga famílias grandes, sem local específico para o isolamento de um doente. Para Hernani Gomes, cacique da aldeia de Piaçaguera, essa é uma grande preocupação: “a gente até pensou em montar um espaço, mas foi muito de repente, não deu tempo montar e a gente não tinha dinheiro. Então, o que a gente orienta é que se alguém tiver os sintomas, é para ficar em casa. Aviso para todo mundo usar máscara dentro da aldeia”.

As aldeias são atendidas pela equipe do Polo-Base de Peruíbe da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) que têm acompanhado os doentes e reforçado as orientações para evitar a propagação da doença nas aldeias.

Os Tupi-Guarani de Piaçaguera contam também com doações de diferentes apoiadores. A Comissão Pró-Índio de São Paulo tem contribuído com a distribuição de kits de produtos de limpeza e higiene, material informativo e, na próxima semana, iniciará a doação de máscaras de pano.

Impacto na renda e insegurança alimentar

As restrições impostas pelo isolamento têm afetado a geração de renda das famílias.  Parte dos moradores trabalha com a venda de flores, plantas e artesanato, comprometida pela paralisação das feiras e do comércio na cidade. Já na aldeia de Awa Porungawa Dju, que desenvolve atividades voltadas para o turismo, os cursos e as oficinas foram suspensos, comprometendo a renda das famílias. O cacique Arildo dos Santos Eugênio expõe sua apreensão com a situação: “o que vamos fazer futuramente se continuar isso aí. A gente está se virando, vamos tentar criar uma loja virtual para vender o artesanato, mas é muito preocupante”.

Por outro lado, com a suspensão das aulas, as crianças ficaram sem acesso à alimentação escolar, colocando em risco a segurança alimentar. A diretora da Escola Estadual Indígena Aldeia Piaçaguera, Lilian Gomes, contou que “nem todas as crianças foram contempladas com o auxílio do governo de R$ 55,00. A gente tem preocupação porque tem família que não tem renda. Nós conseguimos algumas cestas e um vai ajudando o outro. Aqui é assim”. 

Algumas famílias receberam a doação de cestas de parceiros, da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), da Prefeitura de Peruíbe e da Funai, mas não em quantidade suficiente para atender as demandas de todas as aldeias.

Créditos

Matéria: Patrícia Vaz
Entrevistas: Patrícia Vaz e Andressa Santa Cruz
Fotos: Carlos Penteado
Edição: Carolina Bellinger

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