Relatório divulgado pela ONG suíça Voices aponta que o risco das 32 barragens da Mineração Rio do Norte pode estar subestimado e exige responsabilização da multinacional Glencore, maior acionista da empresa

Foto: Carlos Penteado

A maior mineradora de bauxita do Brasil, a Mineração Rio do Norte (MRN), mantêm um complexo de 32 barragens, em Oriximiná, no interior da Amazônia. Relatório divulgado hoje (28/05) alerta que o perigo pode ser muito maior do que o admitido nos documentos oficiais da mineradora apresentados ao governo brasileiro. O estudo é de autoria do geofísico Steven Emerman e foi encomendado pela ONG Suíça Voices, parceira da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).

O lançamento ocorre de forma coordenada com uma manifestação pública da Voices na abertura da Assembleia Geral Ordinária da Glencore, multinacional com sede na Suíça que, desde o fim de 2023, detém 45% das ações da MRN.

Para CPI-SP, o estudo do Dr. Emerman reforça as preocupações que a organização tem documentado e divulgado ao longo de anos de trabalho junto às comunidades ribeirinhas e quilombolas da região. “O estudo evidencia que ainda há aspectos relevantes sobre essas estruturas que precisam ser mais bem compreendidos”, afirma Lúcia M. M. de Andrade, coordenadora executiva da Comissão Pró-Índio de São Paulo. “Esperamos que os questionamentos apresentados no documento sejam analisados e respondidos pela Mineração Rio do Norte, seus acionistas e pela Agência Nacional de Mineração, responsável pela fiscalização da segurança de barragens de mineração”, completa.

Maior complexo de barragens de mineração em operação na Amazônia

O sistema de descarte de rejeitos da MRN abrange 1.700 hectares — o equivalente a quase 2.400 campos de futebol — e armazena 136,8 milhões de metros cúbicos de lama de bauxita contidos por 32 barragens.

Das 32 estruturas, 30 estão situadas no interior da Floresta Nacional Saracá-Taquera, posicionadas a montante das comunidades ribeirinhas de Saracá e Boa Nova. As outras duas ficam na área do porto da empresa, a apenas 430 metros do Quilombo Boa Vista.

Foto: Carlos Penteado

Relatório questiona análises da mineradora

O relatório lançado hoje (28/05) pela Voices foi elaborado por Steven H. Emerman, especialista de reconhecimento internacional em segurança geotécnica de barragens de rejeitos. Emerman já testemunhou perante o Parlamento Europeu, o Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas e a Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente. O especialista examinou os dados técnicos enviados pela MRN à Agência Nacional de Mineração (ANM) e os Planos de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM).

Em entrevista à CPI-SP, Emerman afirmou que as análises computacionais de ruptura de barragem que servem de base para os Planos de Ação de Emergência da Mineração Rio do Norte “são irrealistas, pois as velocidades previstas para os rejeitos são irrealisticamente baixas”. Assim, explica o especialista que para delimitar as zonas de inundação, a MRN projeta que a lama se deslocaria a uma velocidade média de 0,69 a 2,71 km/h em diferentes cenários de ruptura. Contudo, como alerta Emerman, a velocidade mediana registrada em momentos iniciais de rupturas históricas reais de barragens é de 35 km/h — e que até o fluxo natural de um curso d’água sem cheia já atinge 5 km/h.

Na avaliação de Emerman, “dado que as velocidades dos rejeitos foram subestimadas, todas as Zonas de Autossalvamento deveriam ser maiores do que aquelas efetivamente representadas nos Planos de Ação de Emergência da mina MRN”.

Outro ponto destacado pelo pesquisador é o fato de “as barragens de rejeitos serem excessivamente íngremes”. Ele explica que as barragens da MRN têm inclinação média de 1V:1,5H (1 metro vertical para 1,5 metros horizontais). Segundo Emerman, o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, por exemplo, recomenda a inclinação máxima de 1V:5H para barragens de terra, e a Comissão Europeia fixa o limite de 1V:3H para rejeitos. Emerman explicou à CPI-SP que “embora o Brasil não possua regulamentação quanto à inclinação máxima permitida, uma inclinação superior a 1V:2H corresponde à pontuação mais alta (maior probabilidade de falha) para aquela característica específica da Categoria de Risco”.

O estudo alerta ainda que é muito provável que pelo menos 15 barragens da empresa tenham sido erguidas com o método de alteamento a montante — incluindo 13 que seguem recebendo material ativamente. O método de alteamento “a montante” foi banido no Brasil em 2019. O Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração da Agência Nacional de Mineração, lista atualmente apenas duas estruturas da MRN com esse método. Contudo, durante a pesquisa, o geógrafo verificou em um relatório de consultoria de 2021 para a empresa que o método a montante era o método genérico para todas as barragens de rejeitos da mina MRN.

Comunidade Ribeirinha Boa Nova (Foto: Carlos Penteado)

A voz das comunidades: insegurança e falta de diálogo

As mudanças nos estudos e planos de ação de emergência da MRN aumentam a insegurança da população que vive a jusante das barragens. Os treinamentos para situação de emergência que apenas haviam se iniciado, foram interrompidos.

Domingos Rabelo, liderança ribeirinha da Comunidade Boa Nova, descreve a situação: “Antes eles falaram que as comunidades Saracá e Boa Nova tinham risco, agora não tem mais nada de risco. Antigamente tinha risco, agora já eliminou todos os riscos que poderia ter”. Mas a empresa não explica quais mudanças teriam eliminado tais perigos, se queixa Domingos.
Os moradores das comunidades ribeirinhas relatam estarem sob constante estado de tensão. Sua subsistência é inseparável do equilíbrio ecológico dos rios e da floresta — e é exatamente esse equilíbrio que um eventual colapso das barragens destruiria de forma irreversível.

Voices e as demandas à Glencore

Glencore é uma das maiores empresas globais de mineração e comercialização de commodities. Com sede na Suíça, atua nos setores de mineração, metais e energia, incluindo carvão, cobre, zinco, níquel e alumínio. É a principal acionista da MRN, com 45% do capital, e membro do Conselho de Administração.

Em 2025, a ONG Suíça Voices iniciou a campanha “Mina de bauxita na Amazônia: e se a barragem romper?” em parceria com comunidades ribeirinhas e a CPI-SP. Para Julia Büsser, coordenadora de programas da Voices, a organização espera que “a Glencore administre ativamente sua participação acionária e exerça influência sobre a MRN, de modo que a empresa de bauxita garanta segurança e transparência às comunidades”. Entre as recomendações que constam no estudo da Voices, lançado hoje, estão:

– Assegurar transparência quanto ao método de construção das barragens.

– Verificar a segurança das barragens e submetê-las a uma avaliação independente.

– Elaborar planos de emergência e evacuação em conjunto com as comunidades ribeirinhas afetadas, levar em conta os possíveis riscos para as pessoas afetadas e definir medidas concretas (por exemplo, simulados de emergência).

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