Formação promovida pela Comissão Pró-Índio fortalece lideranças quilombolas e ribeirinhas no enfrentamento da crise do clima

 

 

Como orientar as comunidades diante de secas e enchentes cada vez mais severas? Que conhecimentos podem ajudar as lideranças a enfrentar os novos desafios nos territórios decorrentes da crise do clima? Essas questões orientaram o ciclo de formação e troca de saberes “Desafios de liderar em tempos de crise climática”, promovido pela Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP) em três encontros virtuais, nos dias 26 de agosto, 9 e 30 de setembro de 2026.

Ao longo do ciclo, participaram 29 lideranças quilombolas e ribeirinhas de Óbidos e Oriximiná, no Pará. A formação ofereceu elementos para ampliar a compreensão sobre as mudanças climáticas e aprofundar a reflexão sobre caminhos de adaptação nos territórios.A iniciativa está inserida em um contexto marcado pelas secas severas de 2023 e 2024 nesta região da Amazônia, cujos impactos foram relatados durante a formação: falta de água potável, isolamento de comunidades e dificuldades de acesso à alimentação, à saúde e à educação. Os encontros também trouxeram a preocupação com o risco de agravamento das secas e dos incêndios em decorrência do El Niño, reforçando a importância de preparar as comunidades e os territórios para essa nova realidade.

“Queremos engajar as lideranças na reflexão sobre a crise climática, valorizando os conhecimentos e as soluções que vêm das comunidades. Mas alertando também que existem problemas para os quais elas ainda não têm respostas e que exigem a contribuição da comunidade científica e a atuação dos governos”, afirma Lúcia Andrade, coordenadora-executiva da CPI-SP.

Conhecimentos para fortalecer a atuação das lideranças
A formação foi conduzida pelo professor Luiz Jardim Wanderley, da Universidade Federal Fluminense (UFF) com a colaboração dos pesquisadores Pedro Catanzaro da Rocha Leão e Rhuan Sartore. As apresentações foram combinadas com espaço para perguntas e relatos, relacionando conceitos e informações científicas às mudanças percebidas nos territórios.

Para Luiz Wanderley, a formação também abre espaço para refletir sobre o futuro das comunidades. “É um espaço para se pensar os territórios daqui para frente”, afirmou. O professor destacou que essa reflexão envolve as condições vividas no presente e os projetos e desejos de futuro para as comunidades.

Ao longo dos encontros, foram abordadas as causas e as consequências das mudanças climáticas, a injustiça climática e o racismo ambiental, as políticas públicas de adaptação e exemplos de iniciativas comunitárias, além das possibilidades e dos obstáculos de acesso a financiamentos.

As lideranças relataram dificuldades que já fazem parte do cotidiano: igarapés que secam e interrompem o transporte, acesso precário à água potável, calor intenso e obstáculos para chegar às escolas e aos serviços de saúde. Também destacaram a dificuldade de prever os períodos de cheia e vazante a partir dos conhecimentos transmitidos entre gerações.

Para Rosânia Serrão, liderança do território quilombola Cabeceiras, em Óbidos, as conversas ajudam a pensar os cuidados necessários e as demandas às autoridades diante dessas mudanças. Em sua avaliação, destacou que a reflexão contribui “para que a gente possa ficar atento realmente por onde começar, quais são os cuidados que a gente deve ter e o que cobrar dos políticos”.

Elementos para pensar o futuro
Os participantes trouxeram experiências concretas de adaptação já em prática, como a recente iniciativa de implantação de tecnologias sociais de captação de água da chuva viabilizadas com o apoio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome após forte mobilização das associações. As lideranças das comunidades quilombolas beneficiadas monitoram com expectativa a eficácia das cisternas no enfrentamento das secas.

Os encontros reforçaram a necessidade de identificar os problemas e as vulnerabilidades de cada território como ponto de partida para pensar caminhos de adaptação. Também foi destacada a importância dos planos de gestão territorial e ambiental nesse processo. “Os instrumentos de gestão territorial podem ajudar a identificar essas necessidades, organizar prioridades e orientar tanto as iniciativas das comunidades quanto a busca de parcerias e as reivindicações de políticas públicas”, explica Lúcia Andrade.

A formação ofereceu conhecimentos e referências para que as lideranças possam dar continuidade a essas discussões com suas comunidades e associações. O desafio é aprofundar a reflexão coletiva sobre a adaptação e buscar os apoios necessários para a construção de soluções de adaptação climática baseada nos territórios.

Créditos
Realização: Comissão Pró-Índio de São Paulo
Concepção e coordenação: Carolina Bellinger e Lúcia Andrade
Elaboração metodológica e facilitação: Luiz Jardim Wanderley, Pedro Catanzaro da Rocha Leão e Rhuan Sartore

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