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QUILOMBOLAS NO BRASIL

Local isolado, formado por pessoas negras fugidas. Esta talvez seja a primeira ideia que vem à mente quando se pensa em quilombo. Essa noção remete-nos a um passado remoto de nossa história, ligado exclusivamente ao período no qual houve escravidão no País. Porém, os quilombos não pertencem somente a nosso passado escravista. Tampouco se configuram como comunidades isoladas, no tempo e no espaço, sem qualquer participação em nossa estrutura social.

Ao contrário, as comunidades quilombolas distribuídas pelo território brasileiro, permanecem vivas, organizadas e atuantes, na defesa de seus modos de vida, de sua identidade étnica e de seus direitos territoriais. Essas comunidades seguem lutando pelo reconhecimento e pela garantia da propriedade coletiva de suas terras tradicionais, direito assegurado pela Constituição Federal de 1988.

Quantos são; Onde estão

De acordo com os resultados do Censo Demográfico 2022, a população quilombola residente no Brasil é de 1.330.186 pessoas vivendo no Amazonas, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins.

Ainda segundo o Censo 2022, a Bahia e Maranhão concentram metade (50,12%) da população quilombola do Brasil. Na Bahia, vivem 397.502 quilombolas (29,88% da população recenseada). Já no Maranhão foram recenseadas 269.168 pessoas (20,24% do total). Em terceiro e quarto lugar, vêm Pará (135.603) e Minas Gerais (135.315) que, somados, reúnem 20,37% da população quilombola do país.

Fotos: Carlos Penteado

Quilombos Contemporâneos

Quilombo é a denominação para comunidades constituídas por pessoas escravizadas que resistiram ao regime escravocrata que vigorou no Brasil por mais de 300 anos e só foi abolido em 1888. Os quilombos se constituíram a partir de uma grande diversidade de processos que incluíram as fugas para terras livres e geralmente isoladas. Mas a liberdade foi conquistada também por meio de heranças, doações, recebimentos de terras como pagamento de serviços prestados ao Estado e pela permanência nas terras que ocupavam e cultivavam no interior de grandes propriedades. Registram-se também casos de compra de terras tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após sua abolição. O que caracterizava o quilombo era a resistência e a conquista da autonomia. A formação dos quilombos representou o movimento de transição da condição de escravizado para a de camponês livre.

Os quilombos continuaram existindo e sendo formados mesmo após o fim formal da escravidão. A existência de comunidades quilombolas contemporâneas é uma realidade latino-americana. Tais comunidades são encontradas na Colômbia, Equador, Suriname, Honduras, Belize e Nicarágua. E em diversos desses países – como ocorre no Brasil – o direito às terras tradicionais é reconhecido na legislação nacional. Os direitos das comunidades quilombolas também são assegurados pela Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) Sobre Povos Indígenas e Tribais, ratificada pelo Brasil e por diversos países da América Latina.

As comunidades remanescentes de quilombo – ou os quilombos contemporâneos – são grupos sociais cuja identidade étnica até hoje os distingue do restante da sociedade. A identidade étnica de um grupo é a base para sua forma de organização, de sua relação com os demais grupos e de sua ação política. A maneira pela qual os grupos sociais definem a própria identidade é resultado de uma confluência de fatores, escolhidos por eles mesmos: de uma ancestralidade comum, formas de organização política e social a elementos linguísticos e religiosos.

Somente em 1988 – 100 anos após a abolição da escravidão – a Constituição de 1988 garantiu, pela primeira vez, a existência e direitos territoriais para essas comunidades negras. A Constituição brasileira assegurou às comunidades descendentes de quilombos o direito à propriedade de seus territórios coletivos. No entanto, a efetivação do direito dos quilombolas às suas terras representa até os dias atuais um enorme desafio. A primeira titulação ocorreu sete anos após o reconhecimento pela Constituição Federal. Foi em novembro de 1995, quando as famílias quilombolas do Quilombo Boa Vista tornaram-se proprietárias de seu território.

ACESSE